Produção e Comércio Mundial de Produtos Florestais
- Marcio Funchal
- 16 de mai. de 2023
- 3 min de leitura
Coluna mensal elaborada à pedido da Revista O Papel/ABTCP - Coluna Estratégia e Gestão - Edição de Abril de 2023.

É inegável que nas últimas décadas as cadeias produtivas de todos os países tenham se interconectado em complexas cadeias de negócios globais. A cada dia se torna mais obsoleto o conceito de indústrias do início do século passado em que a receita do sucesso e prosperidade era a verticalização das operações (como no clássico exemplo do automóvel, onde o “modelo” era que cada fábrica produzisse seus próprios pneus, acabamentos internos, partes mecânicas e etc.).
Vimos mais recentemente uma explosão do comércio mundial de produtos e serviços. Dados da Organização Mundial do Comércio apontam que o valor do comércio de bens e produtos cresceu quase 300% nos últimos 20 anos, mostrando assim que as negociações de compra e venda entre empresas de diferentes países se consolidaram no modelo produtivo mundial.
Para acompanhar o aumento do comércio internacional de mercadorias, necessariamente foi necessário também um aumento da produção mundial dos mais diversos produtos. A Figura 1 resume como se deu o crescimento da produção mundial de produtos do setor florestal. Embora alguns destes tenham vislumbrado um crescimento muito elevado (os painéis de madeira são exemplos desse fenômeno), outros tiveram um aumento relativo mais conservador (como na tora e na celulose).

Como “padrão”, uma parte da produção do país é comercializada no mercado interno, atendendo a demanda local, e outra parte é exportada para empresas localizadas em outros países. Nas Figuras a seguir são apresentadas as configurações do mercado mundial dessas cadeias produtivas do setor florestal, durante o período dos últimos 20 anos.
A primeira análise envolve o destino da produção mundial de tora (ver Figura 2) e de cavaco (Figura 3). Em ambas as situações, é fácil perceber uma estabilidade geral do volume da produção destinado ao consumo interno e do volume de produção destinado ao comércio internacional. Em termos relativos, ambos os produtos têm expressividade limitada no comércio mundial.

A Figura 4 mostra que cerca de 30% da produção mundial de madeira serrada (nas mais diversas configurações de qualidade, acabamento e tamanhos) tem sido destinada ao comércio internacional durante praticamente todo o horizonte de análise. Por outro lado, se vê na Figura 5 que a importância do comércio internacional para os painéis de madeira sólida (chapas de compensado, OSB, painel colado lateral e outros) caiu no período selecionado (representando hoje cerca de 1/4 da produção mundial deste produto).

As próximas duas análises mostram situações antagônicas. No caso dos painéis de fibra de madeira (MDF, MDP, HDF e outros), a importância do consumo dos mercados internos cresceu fortemente nos últimos 20 anos, embora se tenha uma ligeira retração desde 2015 (passou de 80% no ano citado para 76% em 2022, conforme a Figura 6). Mesmo assim, no acumulado, a relevância do mercado doméstico permanece bastante significativa.
Já na Figura 7 tem-se uma certa estabilidade no crescimento da importância do mercado internacional como destino da produção mundial de celulose. Contudo, a proporção entre comércio internacional e mercado doméstico tem se mantido praticamente constante desde 2016.

No caso da produção mundial de papel e papelão (ver Figura 8), a importância do mercado internacional caiu levemente nos últimos anos, representando atualmente menos de 30% do destino final da produção mundial deste tipo de produto. A Figura 9 mostra a configuração do mercado mundial das embalagens de papel e papelão. Os números mostram ligeiro aumento de relevância do comércio internacional, muito embora este destino represente aproximadamente 1/4 da produção mundial dessa cadeia produtiva.

Consolidando as análises, é fácil concluir que a produção mundial de produtos florestais está fortemente atrelada ao consumo no mesmo país de origem. Dentre as diversas cadeias produtivas, a celulose é a que deposita maior esforço para o comércio internacional.
A questão que se coloca é: há elementos hoje para prever mudanças drásticos de cenários no futuro, no médio ou longo prazos? Quais os impactos, oportunidades e riscos que eventuais rupturas poderão proporcionar às indústrias brasileiras? E quanto aos concorrentes internacionais? Lembre-se do mantra do pensamento estratégico: é preciso estar preparado até mesmo para os momentos mais difíceis.
Coluna mensal elaborada à pedido da Revista O Papel/ABTCP - Coluna Estratégia e Gestão - Edição de Abril de 2023.
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